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O Partido Trabalhista Nacional
Convivência, Humanidade e Consciência
A História é a crônica das inumeráveis formas
de convivência adotadas pelo homem ao longo dos tempos. Tais formas
com o tempo adquirem contornos definidos, traduzem-se em hábitos,
costumes, normas, padrões.
Institucionalizam-se. O imenso acervo de observações recolhidas
do estudo de tantas culturas, já desaparecidas ou ainda existentes,
conclui possuírem todas os chamados denominadores comuns.
No homem, encontrado nas mais diferentes condições naturais
e sociais, persiste a Humanidade, fundo comum a distinguir a criatura
humana.
As características somáticas não bastam evidentemente
para definir a Humanidade. Seria reduzir um conceito cultural a um dado
morfológico.
Algo existe a transcender do tempo e do meio, assegurando ao homem a unidade
substancial na variedade acidental. Se analisarmos o homem no Período
Neolítico ao Paleolítico e assim por diante, algo comum
existe, pois em cada homem a identificar a todos os homens, a fazer dos
seres humanos, estejam ou não distanciados no tempo e no espaço,
uma coletividade única no mundo. É a consciência.
O homem é um ser consciente, é uma consciência que
convive.
Seja qual for o nome e a interpretação que se queira dar
a esse traço distintivo do homem, a essa característica
singular, a esse patrimônio ou depósito gratuito, que é
a consciência espontânea, natural, primitiva, inata, sua existência
é universalmente reconhecida. De Platão a Husserl, a interpretação
tem variado. Reminiscências, luz natural, idéias representativas,
idéias inatas, intuição, substrato, camada fundamental
além da análise fenomelógica, mas a chama interior
aí está, acesa a alumiar cada homem.
Essa luz é que faz de todos e de cada um a Humanidade.
A Humanidade está no homem da Idade Pedra como no astronauta de
hoje, em Sócrates e nos que o condenaram, em Cristo e nos que o
crucificaram, em Gandhi e no seu assassino, no sábio como no ignorante,
no civilizado como no selvagem.
O Humanismo é a germinação desse lastro, a expansão
de tal virtualidade, a atualização da singular potencia.
Mediante a Consciência, o homem identifica as demais criaturas humanas,
estejam próximas ou distanciadas no tempo ou no espaço,
como integrantes de uma coletividade única no mundo. Ser consciente,
consciência que convive, é ele e o todo, é Pessoa
e é Humanidade.
Humanizar é valorizar, expandir, exaltar a consciência. Eis
a tarefa histórica do Humanismo individual e coletiva.
Pessoa e Indivíduo
Consciente, o homem é uma criatura responsável e convivente,
com personalidade própria, distinta, singular e ao mesmo tempo,
individualidade social, cultural, coletiva. Simultaneamente é um
ser situado, isto é, subordinado a normas e padrões de convivência,
influenciado pelos valores da cultura a que pertence, e é um ser
livre, que escolhe, opta, imagina, sonha, idealiza, decide.
Como ser único conhece-se a si mesmo e ao mundo e constrói
um destino próprio.
Nessa dicotomia, estão o drama e a grandeza do homem. Entre os
dois pólos a exaltarem e dilacerarem a criatura humana, ocorre
uma variedade infinita de atitudes: desde a que reduz o homem à
quase um autômato, ao que se chama um ente sem personalidade,
a um tipo praticamente subordinado por completo ao meio, até a
dos eternos inconformados, a dos rebeldes, a dos gênios criativos.
Pessoa e Indivíduo, ser pessoal e ser socializado, constituem
os germens ativos da História, porque é da conjugação
de suas manifestações que surgem e se modificam as formas
de convivência.
Se biologicamente o homem evolui, sejam quais forem os problemas ainda
insolúveis e as modalidades desta evolução, desde
as teorias de Darwin até as concepções de Teilhard
de Chardin, do ponto de vista da consciência, que é pessoal
e social, o homem ora evolui ora involui, dentro do mesmo tipo de cultura.
A excelência das formas de convivência, portanto, das instituições
e das culturas, se mede pelo grau de equilíbrio entre a disciplina
social do indivíduo e a liberdade moral e intelectual da pessoa.
A hipertrofia da primeira conduz à escravidão totalitária,
a hipertrofia da segunda leva a insolidariedade, à dissolução
social, à anarquia.
Daí, a exigência de existir a Autoridade, que é,
em última análise, o árbitro a estabelecer e regular
os limites entre a disciplina social do indivíduo e a expansão
da pessoa, entre o bem comum e o bem pessoal, entre a solidariedade e
a liberdade.
Intenção e Interação
Mas as coisas significam porque revelam um propósito, uma intenção.
Eis o que as distingue, situa e caracteriza.
Do átomo às mais amplas estruturas, do protoplasma aos
organismos mais complexos, encontramos uma intenção reguladora.
Tudo nasce e cresce obedecendo às normas adequadas à produção
de determinada coisa. A célula escolhe o que lhe convém,
multiplica-se ordenadamente e o conjunto assume dispositivos apropriados
ao organismo a ser produzido, ao objetivo a ser alcançado.
Quando a reprodução celular desordena-se, é o câncer,
a anomalia. Um propósito coerente governa a evolução
embriológica, como a tudo mais. Uma intencionalidade está
presente em todas as fases, do começo ao fim. Cada composição
se faz, cada etapa se completa com determinado fim, com um intento certo,
preciso. Um intencionalismo biológico preside o mundo vivo. A vida
é uma intenção que se manifesta no homem e diante
do homem. O físico, o químico e o biólogo, de análise
em análise, descem até partículas ínfimas
e desvendam seu modo de existência. Mas, nem a física nem
a biologia conseguem dizer porque ocorrem de tal forma e não de
outra os fenômenos observados. Por isso, a ciência é
descritiva e não explicativa.
As causas finais, as supremas intenções reguladoras estão
além da ciência.
A psicologia procura penetrar funda na alma humana, devassar-lhe o
subconsciente, conhecer os instintos, a atividade mental, a memória,
os
sentimentos, o comportamento. Mas se detém no último porque,
na intenção
oculta que, afinal promove a organização da estrutura e
seu funcionamento.
O mesmo se passa na vida social. A filosofia da história, a sociologia
e
a antropologia estudam as formas de convivência adotadas pelo homem,
no
decorrer dos séculos e contemporaneamente, na investigação
de causas,
normas reguladoras, intenções. Além do imenso e valioso
acervo de
observações, o resultado, quando se pretende avançar
mais, são hipóteses
grandiosas, mas efêmeras,teorias, logo assaltadas por contradições,
dúvidas e novas observações. Assim desde o Providencialismo
de Santo
Agostinho, até o Materialismo dialético de Marx.
Por outro lado, ao se pretender considerar apenas o homem situado, a
raciocinar na decorrência lógica de rigoroso empiricismo,
à conclusão a
que se chega é a de certos existencialistas: a vida é um
absurdo, uma
náusea. Se não há uma intenção em nós
e no que nos cerca, se estamos
reduzidos ao mero viver, presos a umdeterminismo mecânico. Porque
tantos
sacrifícios, tamanhos sofrimentos?
Ao traumatismo do absurdo, responda-se com a violência de outro
absurdo
o desespero, que justifica o suicídio, ou a libertação
desenfreada dos
instintos. Morte ou crime.
A intenção é inarredável. Mas o homem logra
alcançar o desdobramento
intencional até certos limites. Mais além, são as
hipóteses, as filosofias,
as religiões, com os problemas finais da razão de ser do
homem e o seu
destino.
As diferentes soluções com que o homem tem procurado resolver
a questão
máxima marcam suas formas de convivência, suas instituições,
suas culturas.
Dá-lhes intenção.
Também na convivência com os outros, é o homem movido
por intenções, ora
expressas ou ocultas, ora visíveis ou desapercebidas, ora conscientes
ou
inconscientes. A interação é um ato intencional recíproco,
do qual o homem
recebe o impacto tanto da reação como da recorrência.
Enfim, diante da natureza, impele o homem à intenção
de explorá-la em seu
benefício, dominá-la em seu proveito. Para isso, é
levado a observá-la,
estudá-la, experimentá-la, a fim de desvendar-lhe os segredos,
descobrir-lhe as normas íntimas, o jogo de causa e efeito, as leis
que a
regem, ou seja, as intenções a que obedece.
Enquanto organismo vivo, o homem faz parte também da Natureza
e é,
portanto, governado por leis naturais, relações necessárias,
intenções
rigorosas, se bem que com certas mudanças de indivíduo para
indivíduo,
que a biologia e a psicologia não lograram ainda explicar completamente.
Mas como assinalou Pascal, o homem tem a vantagem de saber que é
uma fraca
partícula da intenção natural universal e a Natureza
não o sabe.
Enquanto elemento social, indivíduo da sociedade, respira a atmosfera
intencional de uma cultura,impregna-se dos seus valores, enquadra-se na
disciplina de suas instituições e se beneficia do domínio
alcançado sobre
a Natureza.
Enquanto ser moral, com um destino distinto da sociedade, capaz de
escolher em escala maior ou menor, conforme o poder vivo da cultura e
a
força de sua personalidade, o homem cria, sonha, idealiza, rebela-se,
tem
ânsia de investigar, de conhecer, procura entrar em contato com
outros
homens e outras culturas do passado ou contemporâneas, consagra
a
existência a uma pesquisa desinteressada, sacrifica a vida por um
ideal,
suporta a tortura para não revelar um segredo, tem e desperta vocações,
faz hipóteses, constrói teorias, inventa estilos, ama e
odeia, sofre a
atração do sobrenatural, é o inquieto permanente,
o eterno revolucionário.
Como indivíduo, o homem é um ser situado: como pessoa,
é um ser em busca
de situar-se. É o movimento à procura do repouso que jamais
alcança na
vida.
Intenção e Complexo Intencional
Á medida que desenvolveu sua vida mental, ao longo das idades
pré-históricas, o homem procurou desvendar a intenção
que o explica e
explica as coisas que o rodeiam. Daí, os mitos, as crenças
e as religiões
que sempre acompanharam a criatura humana, por toda à parte. Daí
também
as técnicas que desenvolveu para aproveitar as forças naturais
e lhes
impor as próprias intenções, em correspondência
com o conhecimento que
ia adquirindo de como as intencionalidades da Natureza se manifestavam.
Na convivência com os outros homens, o ser humano age e reage na
base de
convivência. No íntimo de cada cultura, a lhe compor a super-estrutura,
está um complexo intencional. Dele é que decorrem os símbolos,
as
preferências coletivas, as atitudes sociais, os valores culturais.
Quando as super-estruturas extravasam, no tempo e no espaço, englobando
outras culturas, em grandes realizações históricas,
surgem as civilizações.
É o mundo egípcio, o persa, o helênico, o romano,
o ocidental. A mantê-las
e impulsioná-las, estão as forças dominantes do complexo
intencional que
as caracteriza. Cada uma traduz, em última análise, uma
interpretação das
intenções manifestadas pela vida, o homem e a natureza.
Por isso, ao lado
dos denominadores comuns próprios da Humanidade, cada uma tem o
seu estilo,
seus valores peculiares, suas linhas de força. Civilização
é uma
experiência intencional da Humanidade. Intencional porque conduzida
por
intenções, intencional porque na procura de descobrir, aproveitar
e
explicar intenções naturais, sociais, espirituais.
A expressão desses dois movimentos traduz-se na dialética
intencional.
Assim como a inteligência só pensa mediante imagens, na
afirmação
aristotélica, a consciência somente se movimenta ao impulso
de intenções.
Agir ou refletir é colocar em ação uma intenção.
Mas o homem age porque
pensa e quer. Razão e Vontade fundem-se na ação para
cumprir a Intenção.
Do exterior, a intenção recebe estímulo: do interior,
o desejo. Aquele
variado e complexo, como são para cada um, os outros homens e a
natureza:
esse claro ou escuro, superficial ou profundo, de agora ou do passado,
do
eu e do meio, da raça, da cultura, da hereditariedade.
Assim no homem, a Intenção é a resultante de uma
trama de forças que se
ramificam a perder de vista. Na menor intenção, está
o homem todo. Eis
porque são as intenções que melhor revelam o caráter
de um homem: não,
os seus atos ou pensamentos, mas a intenção que eles revestem.
Em relação aos outros homens e à natureza, o homem
vive numa atmosfera
intencional. No íntimo do processo social, se encontra a intencionalidade.
Se a ação, como vimos, é a intenção
em ato, por força da razão e da vontade,
movidas pelo estímulo externo e o desejo interno, a interação
social
fundamento da vida em sociedade é a co-presença de
intenções, que se
harmonizam, conjugam-se ou se chocam convivem. O jogo dialético
não é,
pois necessariamente, conflitante, como uma redução unilateral
veio
conduzir esse antigo método demonstrativo à lógica
universal dos
contraditórios de Hegel e à lógica social de Marx.
Ele é convivente. As formas de simpatia, particularmente o amor,
traduzem
uma dialética combinatória,conjugadora, de afinidade. A
posse amorosa é o
empenho dialético de homens e mulheres, desde que a Humanidade
existe, a
ânsia desvendadora das intenções de um do outro para
uma desejada rendição
sempre maior.
Tornar a Dialética processo forçoso de contraditórios
constitui um dos
desvios fatais do pensamento filosófico, dos mais claramente anunciadores
da desintegração da Cultura Ocidental, que o gênio
de Nietzche aprendeu
com uma grandeza trágica.
Na interpretação dialética de Hegel e, depois, de
Marx, o diálogo
intelectual do Ocidente recebeu o vírus que iria determinar o fim
da
hegemonia européia na convivência das Culturas, com repercussão
no
processo ocidentalizador do mundo, iniciado com as descobertas e navegações.
O imperialismo do contraditório, a mais poderosa e funesta forma
imperialista criada pelo homem, porque inserida em sua própria
inteligência.
Dialética Intencional
Da ação e reação provocadas pelas duas presenças
intencionais do sujeito
e do objeto, do eu e não do não-eu, da consciência
e da extra-consciencia
que podem ser afins, combinatórias ou conflitantes, origina-se
um
processo dialético incessante a operar mudanças pessoais
e sociais.
Se as Culturas são isoladas, estáticas, fechadas, o processo
dialético
intencional reduz-se a um mínimo, quase desapercebido, às
vezes. Se as
Culturas se expandem, tornam-se dinâmicas, pluridimensionais, o
processo
é acelerado e, em conseqüência, as mudanças crescem
em número e extensão.
A tentativa de autodefesa cultural dá nascimento aos tabus, as
convenções,
as liturgias.
A cicuta matou Sócrates, mas não a busca ansiosa da verdade,
que glorifica
o pensamento grego. As feras dos circos romanos devoraram os cristãos,
mas não impediram a expansão do Cristianismo.
As fogueiras queimaram os herejes, mas não evitaram a democratização
do
pensamento.
Na esfera do pensamento, a dialética intencional manifesta-se
no diálogo
intelectual.
Por isso, as Culturas, na medida em que se dinamizam, são diálogos
entre
a situação e a não-situação,entre o
situado e o a situar-se. A chamada
Civilização Ocidental, que incorpora as Culturas judaico-cristã,
grega e
romana para ficar no esquema principal é o mais vivo
diálogo da época
histórica, entre cujas vozes mais altas se distinguem: Sócrates,
Platão e
Aristóteles; Agostinho, Tomaz de Aquino e Bacon; Descartes, Kant
e Hegel;
Newton, Kepler e Galileu.
Sempre que o diálogo fraqueja ou emudece, a Civilização
decai e com o
tempo, vem a ser dominada por outra, em que o diálogo cresce de
vida. Na
Antiguidade, nenhum diálogo mais vivo que o da Grécia. Daí,
o milagre
grego, e sua influencia até hoje na Civilização Ocidental.
No mundo
moderno, o diálogo no Ocidente, após a Renascença,
correspondeu ao
enfraquecimento progressivo do diálogo no Oriente. Como resultado,
o
predomínio ocidental, a ocidentalização do mundo,
a ocidentalização da
Europa, onde se condensará a portentosa conversa.
O diálogo é principalmente, obra da Pessoa. Quando esta
é sacrificada ao
Indivíduo, quando a disciplina social esmaga a liberdade pessoal,
quando a
Cultura abafa a Consciência, quando a Civilização
ameaça a Humanidade, é
chegada a Crise Histórica, mais tarde simbolizada num episódio,
como a
queda de Roma ou a tomada da Bastilha.
O diálogo derrama-se na literatura e impulsiona a técnica,
gerando atitudes,
fomentando novos hábitos e costumes, estimulando doutrinas e teorias,
alterando instituições e promovendo mudanças culturais.
Para quem leu ou ouviu falar de Galileu, Copérnico, Bacon, Descartes,
Newton e Euler, sem diálogo dos quais não existiria a ciência
que permitiu
a aviação, há cem mil que utilizam aviões.
Para um que toma parte ou
acompanha o processo dialogístico, existem hoje em dia, cem mil
que
somente lhe conhecem as ultimas conseqüências práticas.
É a brecha, cada vez mais acentuada, entre cultura material e
cultura não
material. A primeira, de total interesse do homem, atua principalmente
sobre o Indivíduo, o ser socializado e traduz intenções
particulares,
imediatas, aplicativas. A segunda, fundamentalmente ligada à Pessoa,
coloca-se no plano de valores, das cúpulas estruturais, mais da
liberdade
do que da necessidade.
Assim como não há compartimentos estanques separando, no
homem, Pessoa e
Indivíduo, também não existem, na sociedade, separações
esquemáticas entre
cultura material e cultura não-material. No homem, nas sociedades
e nas
culturas, a vida é interação, a existência
é interpenetração. Viver é
conviver. O que ocorre é uma gradação de intenções,
um desdobramento
intencional.
Relação e Significação
Descobrir a intenção de uma coisa ou de um ato é
revelar ou emprestar
um significado. Se a vida e o mundo não são um absurdo,
tudo tem
significação. Vivemos em uma atmosfera significativa.
Mas o homem só aprende a significação das coisas,
dos atos e das obras,
através das relações que eles manifestam. Relações
necessárias as leis
no mundo natural, relações culturais, isto é, relativas,
históricas,
aproximativas e objetivas-subjetivas no mundo social. Para as limitações
humanas, significar é relacionar.
Eis porque, descobrindo relações que aprende, o homem afirma
existências
que não alcança. A hipótese precede a teoria e esta
descreve o fenômeno,
somente mais tarde e nem sempre reproduzido pela experiência.
Dos laboratórios, a ciência avançou para as fórmulas
matemáticas e são
elas que conduzem a investigação, criando um mundo de símbolos
para
traduzir o que se passa além dos limites dos sentidos, mesmo quando
prolongados pelos mais engenhosos instrumentos. Esta revolução
epistemológica, que resulta em formulações mentais
cada vez mais amplas,
fez esboroar de vez o empiricismo materialista que dominara a ciência
até o século passado.
Mas toda observação violenta o observado. No mundo macrofísico,
essa
violência pode ser desprezível, no mundo microfísico,
é considerável. Não
podemos observar a intimidade do átomo com instrumentos menores
do que o
átomo e esta intervenção é brutal. A teoria
quântica, mais revolucionária
que orelativismo, firmou o caráter relacional do conhecimento,
subvertido
pelo empirismo e o racionalismo e promoveu o advento do fecundo conceito
de complementaridade, que abriu novas perspectivas, deixando para trás
o
velho determinismo e confirmando a intencionalidade das coisas.
Homem Intenção que Convive
Destronada em suas bases no mundo natural, que podem significar hoje
em
dia, a velha mecânica social, a ciência despoja-se
dos apriorismos
mecanicistas com que tentaram enroupá-la as idéias filosófico-cientificas
dos séculos passados, com enorme repercussão neste século
que vivemos.
Do relativismo à teoria dos quanta e à complementaridade,
é toda uma
evolução anti-determinista que se acentua nas ciências
físico-matemáticas
a as ciências naturais e sociais.
Da antiga Etnologia à Sociologia do Conhecimento e à Antropologia
Cultural,
é toda uma complexidade crescente que se desvenda às Ciências
do Homem, ao
estudo comparativo das formas de convivência humana, deixando para
trás os
esquemas simplificadores do monolinearismo histórico, da mecânica
social e
da dialética marxista. Do Evolucionismo Spenceriano, do Socialismo
marxista, e a marcha comparativa e ao mesmo tempo, cada vez mais
diversificada, para as amplas perspectivas das Ciências do Homem.
Do velho aforismo mecanicista O homem é um teorema
que marcha
evoluímos para a ampla concepção dialética,
existencial e humanista de
que o homem é uma intenção que convive.
O grande diálogo que o Materialismo aparentemente vitorioso ameaçara
interromper, encostando o homem à parede, com o pseudo-demonstração
de
que ele era apenas o sub-produto de uma dialética histórica,determinista,
inexorável, vai retomar novo ímpeto, agora em dimensões
mundiais.
A redescoberta intencionalista afigura-se como um dos novos pontos de
partida mais promissores e fecundos, ligando uma conquista que Aristóteles
já entrevira aos mais modernos avanços das Ciências
do Homem.
A dialética marxista, estreita, unilateral, contraditada pela
revolução
físico-matemática, negada pelo desenvolvimento da Antropologia,
substitui-se à dialética intencionalista, de larga perspectiva,
afim
com a História em seus desdobramentos imprevistos, receptiva da
filosofia
dos valores, do personalismo e do existencialismo espiritualista, apta
a
recolher todas as formas de Cultura, todas as modalidades convivenciais,
capaz de integrar Pessoa e Indivíduo, Homem e Sociedade, Cultura
e
Civilização, numa afirmação de Consciência
e Humanidade.
Filosofia do Trabalho
É na base deste intencionalismo fundamental da Vida do
Espírito e da
Matéria do Homem, da Natureza e da Sociedade que
erigimos a Filosofia
Social do Trabalho.
O Trabalhismo, numa concepção filosófica e antropológica
intencionalista.
Na esfera humana intelectual, cultural e social é
o Trabalho que
realiza a Intenção. Em Deus, obra e intenção,
fundem-se num só momento
divino. No homem, entre a intenção e o ato acabado, seja
de que natureza
for, interpõe-se o esforço necessário, biológico
e espiritual. Ao ato
humano físico,moral ou intelectual a Intenção
confere a Essência e o
Trabalho a Existência.
Eis porque o Trabalhismo só é verdadeiro numa concepção
total, que
abranjam todas as suas formas e expressões. Eis, também,
porque o
Trabalhismo autêntico não vê classes sociais, mas distingue
apenas tipos
de trabalho, categorias profissionais.
Eis, ainda, porque um Trabalhismo genuíno repele tanto o aviltamento
quando o desperdício do trabalho e requer, pois, tanto a sua dignificação
quanto o seu planejamento. Eis, finalmente, porque o legítimo Trabalhismo
repudia o determinismo materialista que imagina aprisionar a Intenção
ou
suprimi-la, para terminar, filosoficamente, no desespero da náusea
ou,
sociologicamente, na produção artificial de intenções
impostas à força
pelo totalitarismo. E defende a liberdade, como o clima natural do
processo dialético intencionalista, que o oxigena e fecunda para
a
riqueza do diálogo intelectual e o desenvolvimento normal e flexível
das
mudanças sociais.
Assim concebido em termos de Humanidade e Consciência, de Existência,
Convivência e Intenção, de Cultura e Civilização,
de Pessoa e Indivíduo,
de situado e a situar-se, de Dialética Intencional, o Trabalhismo
dignifica
o trabalho humano no plano histórico do seu destino sócio-cultural
e o
exalta no plano espiritual, supra-histórico, do seu destino sobrenatural.
Na perspectiva da Dialética Intencionalista, o Trabalho acompanha
a
Intenção desde o desdobramento celular dos seres vivos e
do movimento
das partículas constitutivas do átomo, até as criações
dos poetas,
artistas e filósofos.
Encontra, assim, o Trabalho, o seu real significado, a sua expressão
humana e universal. Oferece, pois a base filosófica, moral e histórica
para uma doutrina social.
Existir, Conviver e Intencionar eis os três fundamentos
irrecusáveis
da vida em sociedade e, portanto, os verdadeiros alicerces de uma
Antropologia Social. Mas convivemos porque existimos; agimos e fazemos
porque existimos e convivemos. Ora, o agir e o fazer são promovidos
por
intenções, que somente se objetivam mediante o trabalho,
considerado este
em seu significado mais amplo, material e espiritual. Logo, o Trabalho
é
a decorrência lógica e natural da Existência, Convivência
e Intenção.
Sempre e por toda a parte, consciente ou inconscientemente, o homem é
impelido a traduzir em atos ou obras as suas intenções,
forjadas nas
profundezas do seu eu, ao calor das influências hereditárias,
do
metabolismo biológico, do meio geográfico, da Cultura em
que convive,
do complexo intencional em que está situado, como também
do seu gênio
próprio, do seu caráter diferenciado, dos traços
singulares, mais ou
menos marcantes, da sua psicologia, do seu espírito pessoal.
O homem tem a intuição do que representa para ele o trabalho,
não apenas
do ponto de vista econômico, mas profunda e transcendentalmente.
O homem
tem, por assim dizer, o instinto da significação pessoal
e humana do
trabalho. Aí, residem as forças genéticas da sua
luta pela libertação
e valorização do trabalho, que se integra, como parcela,
na luta maior,
sempre renovada e sem fim, pela liberdade, isto é, a expansão
da
consciência, a objetivação da intencionalidade que
ele carrega, biológica,
social e espiritualmente, como Criatura, como Indivíduo e como
Pessoa.
Existimos; logo, convivemos. Convivemos; logo, agimos e reagimos com
intenções. Intencionamos; logo, temos que trabalhar para
realizar as
intenções. A Existência, como dado primário,
fundamental, de verificação
imediata; a Convivência, como fato social básico, evidente
e universal;
a Intenção, como fenômeno psíco-somático
estrutural que engloba, condensa
e exprime todos os demais, desde a percepção até
os recalques e
sublimações nas profundezas do sub-consciente eis
o tríplice fundamento
do Trabalho, as três raízes das quais brota o trabalho humano.
Assim se apresentam, lógica e naturalmente, as bases de uma verdadeira
doutrina social, de um verdadeiro Trabalhismo.
Mas, se a Existência permanece, a Convivência varia, reveste
formas que
diferem, no tempo e no espaço; se a Intenção é
comum a todos os homens,
as manifestações intencionais variam de homem para homem,
de época para
época, de lugar para lugar, de povo para povo, de Cultura para
Cultura,
de Civilização para Civilização. A Existência
e a Intenção são humanas;
a Convivência e as expressões intencionais que a definem
são históricas.
Assim, se o Trabalho é universal, da Humanidade, suas formas também
variam
com o meio, o tempo e as Culturas. Como o grupo social mais característico
da convivência moderna é a Nação, o Trabalho
define-se, também,
nacionalmente,reveste-se de aspectos nacionais, conforme a geografia,
a história, a economia e a psicologia nacionais, de acordo, enfim,
como
o complexo intencional que modela a convivência nacional. Ao conceito
genérico do Trabalho, junta-se a especificação nacionalizadora.
Justifica-se, pois, ser a nossa doutrina nacional trabalhista.
Em seus
fundamentos, é humana; em sua aplicação, é
brasileira. Seus princípios
servem a todos os povos; sua realização é adequada
a cada povo.
O Trabalhismo Nacional é a nossa mensagem ao Brasil e do Brasil
às
Américas e ao Mundo.
Ideologia Trabalhista Nacional
Conclamamos os brasileiros de todas as crenças, raças,
classes e
categorias profissionais a erguer a bandeira do Trabalhismo Nacional,
em marcha para uma Civilização de Trabalho e definido, em
síntese, pelos
seguintes ideais:
Liberdade fundamentada na dignidade da pessoa humana, com seu
destino
espiritual e seu direito de optar, e que se oponha a todo privilégio,
monopólio ou ditadura de raça, classe, partido ou grupo.
Justiça Social baseada na igualdade de oportunidade, em
repartição
eqüitativa de direitos e obrigações de acordo com o
valor social
profissional, em distribuição de bens proporcional à
contribuição para a
sociedade, e no predomínio do bem comum sobre o individual.
Concepção Ecumênica do Trabalho consideradas
todas as formas e
expressões da atividade humana útil à Coletividade
com seus fins sociais,
e à Pessoa com seus fins humanos e seu destino sobrenatural.
Organização Social apoiada em Categorias de Trabalho
e, não em Classes
Sócias e tendo por objetivo a defesa, representação
e dignificação do
Trabalho.
Criação de novo Direito e nova Economia que incorporem
essas concepções
de Liberdade, Justiça, Trabalho e Organização, o
princípio de que só o
trabalho justifica a posse, a moderna revolução tecnológica
e a idéia de
que o Direito e a Economia existem para o Homem, a fim de lhe
proporcionarem bem-estar, ordem e segurança, como também
a realização
de um destino superior à própria Sociedade.
Desenvolvimento Econômico levado a efeito com método
e honestidade,
mediante planos periódicos que tenham em vista: subordinação
da Economia
ao Homem: racionalização; critério de prioridade
e jogo das
interdependências; equilíbrio indispensável entre
a Indústria e a
Agricultura e entre as diversas regiões do país; estímulo
aos
investimentos privados e aos reinvestimentos; controle das iniciativas
que afetam a segurança e soberania nacional; disciplina da inflação;
distribuição eqüitativa de vantagens e sacrifícios.
Sistema Educacional com base em cinco princípios: liberdade
espiritual
do homem e seu destino sobrenatural; interesse pelo progresso nacional
e
afirmação da personalidade brasileira; máximo de
facilidades econômicas
e exigência de rigor intelectual e do comparecimento regular aos
atos
escolares; estímulo à criação intelectual
e artística, à pesquisa e a
ciência, pura e aplicada; rigorosa seleção moral e
intelectual do corpo
docente, sem monopólios nem privilégios.
Organização Sindical obrigatória para todas
as categorias profissionais,
em bases democráticas que garantam autenticidade de representação
e
deliberação, sob o resguardo de Justiça Sindical.
Solidariedade Continental fundamentada na geografia, na tradição
histórica, na comunidade de interesses, na luta contra o
subdesenvolvimento, na ajuda e respeito mútuos, no ideal de unidade
panamericana diante do mundo em crise, na preservação do
Continente
como futuro berço de uma nova Civilização.
Fraternidade Universal com apoio na convivência pacífica,
no
desarmamento geral, na tolerânciareligiosa, na ajuda aos povos
subdesenvolvidos, no respeito á autodeterminação
democrática, na extinção
do colonialismo, do imperialismo econômico e das sujeições
políticas e
ideológicas, em livre intercâmbio cultural, em trânsito
internacional
desimpedido de restrições e no fortalecimento da Organização
das Nações
Unidas.
Apelo
Eis a nossa doutrina. Apresentados ao povo brasileiro, aos trabalhadores
de todas as categorias profissionais.
Estamos mergulhados em grave crise e numa perplexidade perigosa. De
um lado, o enfraquecimento progressivo da Autoridade e o aumento
continuado do custo de vida; do outro lado, a insurreição
popular,
habilmente explorada por grupos políticos e agentes internacionais,
a
repontar por toda à parte, sob diferentes formas. Um presente doloroso
e
um futuro ameaçador.
O que nos falta não é um homem, uma figura providencial,
mas um ideal,
uma doutrina, um corpo de idéias.
Entre acompanhar a vontade de um homem, o que pode vir a ser uma surpresa,
e adotar um pensamento político e um programa definido, não
pode haver
hesitação.
O destino de um povo, de uma Pátria, não pode ser reduzido
ao jogo de
pessoas. Ele transcende dos homens, das gerações, exigos
ao povo
brasileiro uma definição. Não um programa partidário
como tantos outros,
inexpressivo, que serve apenas para registro legal das agremiações
e fica
desconhecido dos seus próprios representantes. Mas uma concepção
da vida,
do homem e da sociedade, da qual decorrem uma Filosofia Social e um
Programa de Ação.
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